Com quase 1.700 espécies, o Brasil é o terceiro país do mundo em riqueza de aves, perdendo apenas para a Colômbia e o Peru.
A avifauna brasileira não é apenas rica, mas inclui diversas exclusividades, espécies que não ocorrem em outros países e que são chamadas de endêmicas. Quase 200 espécies de aves têm distribuição geográfica restrita ao Brasil. Esse fato implica numa grande responsabilidade, pois significa que sua sobrevivência depende unicamente do esforço conjunto da sociedade e do governo brasileiros para a conservação de nosso patrimônio natural.
Boa parte da riqueza ornitológica brasileira é devida à presença de duas grandes formações vegetais: a floresta amazônica e a mata atlântica.
A floresta amazônica, a maior região florestada do planeta, existe há milhões de anos, e o longo histórico de evolução conjunta resultou num ambiente de grande complexidade ecológica. Devido ao clima tropical, à grande extensão e à diversidade de ambientes de que se compõe, apresenta uma riqueza incrível de recursos e de nichos a serem explorados, e é capaz de abrigar uma variedade imensa de aves. Em nenhum lugar do mundo vivem tantas espécies, muitas delas com coloridos, formas e comportamentos únicos e fascinantes.
Também a mata atlântica tem uma avifauna riquíssima, constituindo uma das regiões de maior biodiversidade e maior grau de endemismo no mundo. No passado, estendia-se do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, mas a urbanização e a ocupação agropecuária não pouparam sua exuberância, e da grande floresta costeira pouco restou. Apenas entre o Rio de Janeiro e Santa Catarina existem trechos de mata atlântica que ainda lembram a antiga grandeza desse ecossistema.
Os outros domínios naturais brasileiros podem não abrigar tantas aves quanto essas duas florestas, mas ainda assim sua fauna é rica se comparada com a maior parte dos ambientes no resto do mundo.
Os cerrados, típicos do Brasil central, compõem-se de uma grande variedade de paisagens, indo do campo-cerrado, uma pradaria natural, ao cerradão, uma floresta baixa e densa. Nas margens dos rios ocorrem formações muito típicas, as matas-galeria e as veredas de buritis. Com semelhante abundância de ambientes, é natural que a região dos cerrados seja habitada por um grande número de aves, que inclui algumas espécies não encontradas em outros ecossistemas.
A caatinga talvez seja o mais brasileiro de todos os ecossistemas, pois cresce unicamente no nordeste do país. Apesar da aridez, essa floresta baixa, que durante boa parte do ano tem aparência seca e desolada, abriga uma fauna de aves rica e adaptada ao rigor climático, com vários endemismos interessantes.
Já o Pantanal quase não tem espécies exclusivas, uma vez que não se trata de um ecossistema à parte, mas de um complexo formado pela mistura da fauna e da flora dos outros ecossistemas brasileiros. Esse complexo pantaneiro, porém, é especial e único, pois em nenhuma outra região do país é tão fácil ver tantas espécies de aves tão espetaculares. Não é por acaso que o Pantanal atrai tanta gente apaixonada pela natureza, do Brasil e do exterior.
Além dessas formações vegetais, muitas outras ainda ajudam a compor o diversificado cenário para nossas aves, como os campos sulinos, a floresta de araucária, os manguezais e restingas, as ilhas oceânicas, os campos de altitude e os banhados. Assim, o Brasil deve sua grande diversidade em aves à sua não menos extraordinária riqueza paisagística.
Tanto nossa avifauna quanto nossas paisagens, porém, enfrentam grandes ameaças. A destruição ambiental afeta não só as florestas, mas também outros ecossistemas. Caatinga, cerrados e campos dão lugar à agropecuária. A urbanização avança sobre os ambientes costeiros. Rios e banhados recebem a poluição doméstica e industrial. Até os ambientes criados pelo ser humano são afetados por queimadas, poluição e implantação de rodovias, que criam barreiras à circulação dos animais. As agressões aos ambientes resultam na redução no número de espécies e de indivíduos. Para agravar a situação, muitas aves são perseguidas por passarinheiros e traficantes de animais, estimulados por um mercado ávido por bichos de estimação "exóticos", que existe tanto no Brasil como no exterior. Sem falar na caça, praticada sob várias justificativas ¬ esporte, alimento, proteção da criação, superstição...
Há muito a ser feito para garantir a preservação de nossas aves, por cada um de nós. Não se deve comprar animais silvestres, a menos que sua origem seja legal e autorizada pelo IBAMA. Em caso de construções residenciais, por maior que seja o desejo de viver em contato com a natureza, deve-se evitar a compra de lotes em regiões florestadas ou recém-desmatadas. Ao invés disso, o melhor é criar uma nova floresta: reflorestar com plantas nativas as áreas de preservação permanente da propriedade. Artesanato com plumas de aves silvestres ou de madeiras ameaçadas de extinção deve ser desestimulado. E é sempre bom visitar e valorizar nossos parques nacionais e outras unidades de conservação, museus e instituições de pesquisa.
Acima de tudo, é preciso estimular nas crianças a curiosidade, o interesse e o carinho por nossa natureza. O caminho mais eficiente para a preservação ambiental passa pelo respeito e pelo amor, e a melhor forma de proteger nossas aves, em toda sua beleza e diversidade, é cuidar dos lugares onde elas vivem.
* Trecho do livro Maravilhas do Brasil. Read this excerpt in English.
Maravilhas do Brasil
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Fabio Colombini nasceu em 1964, em São Paulo. Fotógrafo, é formado em Arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade São Paulo (FAU/USP). Dedica-se profissionalmente à fotografia de natureza desde 1988, retratando a fauna, a flora e as paisagens brasileiras, com especial destaque para a macrofotografia de insetos. Participou de mais de 40 exposições e suas fotos já ilustraram mais de 80 calendários e 900 livros. Dentre os prêmios recebidos destacam-se o Prêmio Terra de Fotografia, da revista Caminhos da Terra, o Revela Brasil, da Fundação S.O.S. Mata Atlântica, dois prêmios da revista Américas, da OEA (Organização dos Estados Americanos), dois prêmios da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e o World Calendar Awards (EUA), como melhor fotografia cênica no calendário "Amazônias". É autor dos livros Brasil Retratos Poéticos 2, Pantanal -: Cores e Sentimentos e Brasília e Goiás - Cores e Sentimentos, publicados pela Escrituras Editora.
Martha Argel é ornitóloga, bacharel em Ciências Biológicas pela USP e doutora em Ecologia pela Unicamp. Especialista em comportamento de aves e em ecologia urbana, deu aulas para graduação e pós-graduação em diversas faculdades e atua em Consultoria Ambiental desde 1986. Além de inúmeros artigos científicos e de divulgação publicados no Brasil e no exterior, é autora de Voando pelo Brasil, um livro infanto-juvenil sobre as aves brasileiras.
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