“Ouro Preto é uma cidade que não mudou, e nisso reside o seu incomparável encanto.” Hipérbole. Mas que seja permitido a Manuel Bandeira o pequeno exagero: ele não disse isso em um de seus belos poemas, mas num guia que escreveu em 1938 sobre a cidade.
Quarenta anos antes, Ouro Preto perdera a condição de capital de Minas Gerais. Esse tapa na cara simbólico ocorreu depois que o ouro se esgotou. Hoje a cidade recuperou um pouco de sua proeminência como um dos centros do renascimento dos 1,4 mil quilômetros da Estrada Real, que data do século XVII. Por ela seguiam o ouro e os diamantes de Minas Gerais para os portos, e deles para Portugal. Hoje são turistas, entre eles muitos estrangeiros, que a percorrem. “Vocês nos tiraram o ouro, agora tragam-nos euros”, brinca Eberhard Hans Aichinger, diretor-gerente do Instituto Estrada Real, uma entidade sem fins lucrativos de desenvolvimento turístico.
A Rota 66 brasileira
Comparada por alguns ao Caminho de Santiago, na Espanha, a Estrada Real pode ser descrita com mais propriedade como uma espécie de versão em estado bruto da famosa Rota 66 americana. Ana Celeste da Costa reconheceu o paralelo quase intuitivamente. Sua operadora de viagens, a Melbourne, de São Paulo, manda motociclistas brasileiros fanáticos para percorrer o famoso trajeto entre Chicago e Los Angeles. Agora também traz americanos e europeus para a Estrada Real.
Na Estrada Real a religiosidade certamente é parte da equação; Deus sabe por quantas igrejas com altares cobertos de ouro ela passa. Mas há muito mais. A História do Brasil não poderia ser contada sem ela – nem a política, nem a econômica, nem a cultural, nem, definitivamente, a dos despossuídos, fossem eles escravos, mulheres, garimpeiros ou contrabandistas.
Em 1720, quando a Coroa tratou de recolher os 20% do ouro determinados pela legislação colonial, eclodiu em Ouro Preto a chamada Revolta de Vila Rica, que resultou no esquartejamento de um de seus líderes, Felipe dos Santos. Hoje quem vai ao Parque Estadual do Itacolomi, próximo à cidade, pode visitar a Casa Bandeirista, onde os impostos eram recolhidos na Estrada Real. Construída em 1708 e recém-restaurada, é considerada o primeiro prédio público do estado. O parque, que já foi fechado ao público, abriu recentemente suas portas como parte de uma iniciativa do governo mineiro de tentar conciliar conservação e recreação.
Profetas inconfidentes
Assim como a Rota 66, em muitos lugares a Estrada Real existe mais em espírito do que como uma estrada ou trilha de verdade. Trechos inteiros sucumbiram ao desenvolvimento urbano, às estradas ou simplesmente ao abandono. Mato e pastagens com freqüência cobrem o velho caminho. Também como a Rota 66, a Estrada Real era, na realidade, mais de uma: pouco antes da metade do caminho a partir do seu ponto inicial, Diamantina, ela bifurca – o trecho original seguia até Paraty, e um outro, construído no início do século XVIII, ia para o Rio de Janeiro.
No trajeto podem-se visitar as famosas esculturas do Aleijadinho em pedra-sabão dos profetas do Velho Testamento de Congonhas do Campo, terminadas em 1803. Muita gente as vê como figuras religiosas, o que, de fato, elas são. Mas alguns especialistas acreditam que elas também carregam uma mensagem política. Simpatizante da Inconfidência Mineira, o Aleijadinho teria incluído em cada estátua um símbolo em homenagem aos rebeldes mortos ou desterrados. Para alguns acadêmicos, o profeta Daniel, por exemplo, que tem na cabeça uma improvável coroa de louros, representa o poeta inconfidente Tomás Antônio Gonzaga.
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Encomenda o Guia de Ouro Preto by Manuel Bandeira
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