Splash! Splash! A seqüência de sons me despertou da letargia. Recostado no deque, olhei as águas tranqüilas. Lá estavam, talvez uma dúzia deles. Um cardume de golfinhos. Primeiro saltou um. Depois outro. E outro.
Meus amigos golfinhos vinham provavelmente em busca do jantar, talvez um cardume de sardinhas que entrou no Saco do Mamanguá. Até pouco tempo atrás, visitas de golfinhos a este “fiorde tropical” de 8 quilômetros de extensão por 1 quilômetro de largura eram raras – se é que aconteciam. Há quatro anos, em vez deles eu teria visto pesqueiros arrastar redes, recolher com eficiência – ainda que ilegalmente – as sardinhas e fazer onda.
As pescarias podem ter sido boas, mas os pesqueiros exageraram na dose. Por muito tempo o Saco do Mamanguá exportou mão-de-obra para compor a tripulação dos barcos pesqueiros industriais que percorrem a costa brasileira de Pernambuco a Santa Catarina. Agora, tendo trabalhado nessas embarcações, esses marinheiros experientes sabiam exatamente o que fazer para mantê-las afastadas. Inventaram uma espécie de “repelente de grandes pesqueiros” para ser posto no fundo do fiorde. Trata-se de uma peça de cimento de 1 m2 com uma barra de ferro de 30 cm espetada para cima. Ela rasga redes que sejam arrastadas horizontalmente no fundo do mar, mas é inofensiva para as redes pequenas usadas pelos pescadores artesanais locais, que as jogam e retiram verticalmente.
E assim lá estava eu, graças à engenhosidade dos marinheiros locais, cercado pela Mata Atlântica, a observar a farra dos golfinhos. Em paz. E adorando. Melhor ainda, não precisei passar longas horas em aviões ou barcos para chegar lá. Ali não é nem a Amazônia nem Fernando de Noronha. Eu estava escondido num lugar a poucas horas de São Paulo e do Rio de Janeiro e a menos de uma hora de barco de Paraty.
Barcos em miniatura
Mesmo não levando em conta os danos causados pela pesca predatória, grandes pesqueiros não têm a cara do Saco do Mamanguá. Os caiçaras de lá preferem barcos menores. Alguns nem passam dos 32 cm – é esse o tamanho de algumas das miniaturas fabricadas pelos artesãos locais.
Quem começou o negócio foram os irmãos João e Pedro Souza, há cerca de 40 anos. Quando crianças, eles construíam barquinhos para brincar. Hoje mais ou menos metade das mais de 100 famílias que residem no Saco do Mamanguá ganha a vida com os barcos em miniatura fabricados na tradição de João e Pedro, que são vendidos para turistas em Paraty.
Os artesãos, muitos dos quais têm a idade dos Souza quando começaram, recolhem a matéria-prima do outro lado do mangue que existe no fundo do fiorde. É lá que cresce a caxeta, árvore de cujos galhos os barquinhos são produzidos. Para diminuir o peso da carga que tem de levar de volta, o artesão faz um primeiro entalhe na madeira no próprio local da colheita. Já em sua oficina, ele desbasta e seca a madeira úmida antes de lixá-la e dar o acabamento.
Quando eram jovens, João e Pedro faziam os barquinhos como se fossem modelos para armar, e pronto. A madeira era deixada em seu estado natural. Hoje em dia a maioria dos artesãos prefere pintar suas miniaturas em cores fortes, que lembram as pequenas traineiras que ainda hoje singram as águas de Paraty. Graças em parte a essa nova mudança de rumo, no ano passado os fabricantes de barquinhos do Saco do Mamanguá expuseram suas embarcações coloridas no Museu de Folclore Edison Carneiro, no Rio de Janeiro.
Os turistas do tipo aventureiro, daqueles que gostam de ver de perto esse tipo de coisa, ou que simplesmente querem queimar calorias, podem remar numa canoa pelo mangue até quase as árvores usadas pelos artesãos.
Marina X preservação
Quem empreender esse passeio passará pelo local onde ocorre uma luta entre Davi e Golias. É a área escolhida por alguns poderosos para servir de estacionamento para seus iates – e também um ecossistema de estuário que muita gente quer proteger.
As peculiaridades desse trecho da costa são intrincadas. Para os beija-flores multicoloridos abundantes na região, o Saco do Mamanguá fica bem perto de Laranjeiras, um condomínio fechado onde têm casas de veraneio algumas das pessoas mais ricas e famosas do Brasil. Como não há estradas, tal proximidade nunca fez muita diferença: o caminho mais longo é por barco, o mais curto a pé. Basicamente, o Saco do Mamanguá esteve protegido pela dificuldade de acesso a ele.
Ou estava, até que uma parte da turma de Laranjeiras comprou várias servidões e um terreno no fundo do fiorde. O plano era construir uma marina e uma estrada a partir do condomínio. O Saco do Mamanguá se tornaria uma rampa de acesso ao Atlântico para milionários.
O prefeito de Paraty gostou da idéia. Mas muita gente no Saco do Mamanguá, não.
“O aumento do tráfego provocaria ondas que prejudicariam os pescadores. Os sedimentos subiriam para a superfície e criariam problemas para a fotossíntese, e o óleo das embarcações terminaria no fim do fiorde ou no fundo do mar”, diz o biólogo Paulo Nogara, que trabalha com a comunidade local há mais de uma década.
Depois de uma campanha que obteve muita repercussão, os adversários da marina conseguiram paralisar o projeto. No momento o esquema está enroscado na burocracia, mas não há quem duvide que o império cedo ou tarde vai contra-atacar.
E se muitos moradores locais se opõem ao projeto, alguns são favoráveis a ele. Destes, muitos não têm nem estudo nem trabalho fixo, e, compreensivelmente, têm esperança de conseguir trabalho abastecendo lanchas ou cuidando de iates.
Uma alternativa seria incentivar o ecoturismo. Em vez de encher o tanque de embarcações de luxo, as mesmas pessoas poderiam trabalhar como guias. Além do passeio de canoa até o mangue, já há excursões para o topo do Pão de Açúcar – menos imponente que o homônimo carioca, mas que mesmo assim oferece um panorama que só seria possível ter de helicóptero. Quem tem disposição pode caminhar até Paraty, a várias horas de distância, ou fazer passeios mais curtos pelas trilhas usadas pelos moradores do Saco do Mamanguá há décadas, senão há séculos.
Quem não quiser pode simplesmente ficar sentado no deque a olhar os golfinhos.
To read this article in English, click here.
Esta matéria apareceu na revista Update da Câmara Americana de Comérico.
Para mais informações, visite o site Saco do Mamanguá.
For an economic history of Paraty, click here.
For information about tourism operators who support BrazilMax, click here.